Contando sua História com: Maria Eduarda

Meu nome é Maria Eduarda, tenho 24 anos. Sempre gostei de sair com amigos, estar com a família e isso não mudou... Apenas precisei me adaptar à maneira de como posso estar presente nos encontros. Tinha me formado há pouco tempo e, como precisei me afastar do trabalho (pois era no setor de emergência), dei continuidade aos estudos, hoje curso uma pós-graduação e não vejo a hora de voltar ao mercado de trabalho! Apesar de todos os desafios, procuro enfrentar, seguir em frente porque por mim e pelos que amo, decidi viver.

Me tornei deficiente física há um ano e dois meses, quando sofri um acidente de moto com o meu noivo que, infelizmente, foi a óbito no local... Incrível como não temos controle nenhum sobre nossas próprias vidas. Chega a ser contraditório até chamarmos de ‘própria’ a nossa vida. Esse foi um ponto de vista meu formado mesmo sem querer, sem escolher. Desde o último dia 23 de novembro, tudo em minha vida ganhou um novo sentido. A causa de toda essa mudança? Foram muitas perdas, das mais dolorosas e menos esperadas que você pode imaginar. (Sim, porque somos todos habituados a viver como se fossemos eternos, certo? ‘Que terrível, mas comigo não pode acontecer, não vai...’). Vivi assim também, até aquele dia. Era um sábado e eu estava aqui em Recife, como todo fim de semana, vinha para fazer um curso aos sábados e dedicar o tempo que podia a meu namorado, com quem eu estava há quase oito anos. Gustavo havia comprado uma moto há poucos meses, a princípio somente a usava para ir ao trabalho, no entanto, a praticidade e economia de tempo diante do trânsito na cidade o fez usá-la com uma maior frequência. 
Isso me incomodava muito, aliás discordei desde o momento de decisão da compra da moto. Sou enfermeira, trabalhava há alguns meses em um setor de emergência e fazia parte da rotina os acidentes causados por moto, isso gerava um medo enorme, a ponto de recusar e discutir todas as vezes que Gustavo me convidava a usar com ele. Aquele sábado, apesar de parecer comum e corriqueiro, estava bem atípico. Minha mãe estava em pós operatório em Barreiros e, por isso, eu voltaria para cuidar dela ainda no sábado (não no domingo, como de costume), era aniversário da mãe de Gustavo, mas ainda assim ele não poderia ir pra casa, também no mesmo interior, por ter compromissos do trabalho aqui em Recife. Sendo assim, nos despedimos no almoço, eu inconformada porque ele não podia ir comigo e ele, porque eu não podia ficar, como sempre acontecia quando tínhamos que nos separar em um final de semana. Estávamos muito bem. Tanto que, de uma maneira inabitual, não apresentei resistência nenhuma quando ele propôs me dar uma carona na moto até o ponto onde eu pegaria o ônibus para ir a Barreiros. O percurso era pequeno, seria bem rápido. Pela segunda vez na vida, usei uma moto. Mesmo discordando totalmente do uso daquele meio de transporte, mesmo morrendo de medo, tensa, mentalizando todas as orações que sabia, eu fui.
Ele sabia do medo que eu tinha e percorria o caminho com cautela, sem alteração de velocidade, mas ainda assim o acidente aconteceu. Estávamos totalmente vulneráveis. Nos aproximávamos de um sinal (não consigo me recordar exatamente se estava abrindo ou fechando), Gustavo precisou acelerar um pouco para ultrapassar o carro que estava a frente, este que, imprevisivelmente, teve uma de suas portas abertas em pleno tráfego. Essa é a última imagem que consigo me recordar até antes de estar no chão. E muito, muito barulho. Dias depois informaram melhor como havia acontecido o acidente, provavelmente houve um impacto com a colisão, onde fui arremessada e Gustavo atropelado por um veículo que vinha na mão contrária. Lembro-me de muita gente ao meu redor, me protegendo dos outros carros que continuavam trafegando, estava meio sentada, com as pernas cruzadas e sem conseguir tirar uma de cima da outra, elas não se mexiam! Lembrar daquele momento ainda me deixa um pouco ofegante. Junto à dor incomparável que sentia na coluna, quanto mais eu tentava respirar fundo, mais tinha a sensação de afogamento no seco. Era um sinal do edema pulmonar provocado pela fratura que tive em uma das costelas, comprimindo meu pulmão direito e drenando líquido para dentro dele. 
Mas em nenhum momento imaginei o que pudesse estar acontecendo comigo, apesar de ter todo o conhecimento de uma profissional de saúde, o momento era de choque. Para mim tinha sido somente uma queda da moto. Queria sair logo dali, e junto com Gustavo. As pessoas tentavam me acalmar falando que ele estava bem, esperando os socorristas, mas tentavam evitar que eu olhasse para ele. Ainda consegui vê-lo, estava largado longe de mim, já inconsciente. Até ali, sem noção nenhuma do acontecido, só conseguia acreditar que ele estava bem. Duas pessoas ficaram comigo até a chegada da ambulância, Fabian e Sueli, que até hoje estão em contato, ali começava a aparecer os anjos. O SAMU demorou cerca de 40 minutos, o suporte de oxigênio chegou como uma luz pra mim, já estava perdendo a consciência, sonolenta, sem ar. Mas ainda me recordo de um dos socorristas, de dentro da viatura, solicitando outra ambulância urgente, pois uma das vítimas estava ‘parada’. Isso mesmo, ele estava falando que Gustavo havia sofrido uma parada cardiorrespiratória. Dali eu poderia, o esperado realmente era que eu me desesperasse, mas era como não dar ouvidos àquilo, eu não acreditava, ele só podia estar errado. Até hoje não consigo explicar. E subitamente, uma música tomou conta da minha mente até chegar no hospital, não vinha outra coisa... “segura nas mãos de Deus e vai”. Eu segurei, Gustavo também segurou, mas eu não fazia ideia do quão diferentes eram os caminhos que seguimos. 
Dali por diante foi-me dado um coração de luto, predestinado à luta. Dei entrada no hospital de traumas de Recife, onde vivi todo o drama jamais esquecido. Dores que não imaginei nunca conseguir suportar. A notícia de Gustavo, eu sendo vítima de um acidente de moto, tudo era tão inédito que o meu diagnóstico demorou a ser assimilado por mim. Uma amiga enfermeira passou a noite na unidade de traumas comigo, buscou todas as informações com médicos e residentes responsáveis pelo meu caso, me mostrando os exames, diagnósticos, me deixando a par de tudo. Não sentia nem movimentava minhas pernas, vi a imagem da minha coluna com a vértebra totalmente fragmentada, e do meu pulmão com acúmulo de líquido devido à contusão. Sentia muita dor, não podia falar muito porque estava no suporte de oxigênio e me faltava ar facilmente. Hoje eu posso afirmar, mesmo sem entender exatamente como, mas em momento nenhum me desesperei. Acreditei que tudo aquilo ia se resolver, que eu não estava sozinha, que tudo aquilo ali, por mais assustador que aparentasse ser, estava certo, tudo no seu lugar. A sensação que tinha era essa. A fé que esteve comigo refletia e dava força a meus amigos e familiares para seguirmos juntos o tempo inteiro, dia e noite, acompanhando cada avanço, cada notícia da equipe que cuidava de mim. Fui diagnosticada com fratura em coluna lombar (L1) e seria realizada uma cirurgia (artrodese) para fixação de pinos e hastes na coluna, dali a quatro dias. Precisei passar exatamente 4 meses e 2 dias internada no hospital, devido a uma infecção na ferida operatória da primeira cirurgia e no aguardo de uma segunda artrodese que, graças a Deus, não foi mais necessária após um tempo. Fiquei utilizando um colete para estabilizar a coluna por alguns meses.
Não imaginava o peso da bagagem que me foi dada pra carregar dali pra frente. A ficha foi caindo aos poucos. Voltar para casa e reviver a mesma rotina sem os movimentos das pernas doía demais, só tem ideia quem já passou. Era ouvir o telefone tocar, ter o impulso de levantar para atender e precisar chamar alguém. Nas tarefas diárias, as mais banais, era preciso a ajuda de outra pessoa. Era uma vida totalmente nova começando. Passar por tudo aquilo foi ainda mais doloroso junto à ausência de um alguém que tinha sido extremamente indispensável nos últimos oito anos de minha vida, presentes nas perdas e conquistas. E como ainda dói.
Nos primeiros dias cheguei a não ver mesmo mais sentido em nada. A razão das coisas por algum tempo ficou perdida para mim... Somente aos poucos, naturalmente, consegui enxergar tudo, fatos e pessoas, comportamentos e ideais, morte e vida, de uma maneira completamente diferente de antes, sem muito propósito, com mais essência. Que tem sido uma luta ter que encarar a minha nova vida, disso todos sabem. Mas poucos fazem ideia do tamanho em que se encontra (em todos os meus dias) o sentimento mais sublime que podemos vivenciar aqui: a gratidão. 
Tornar-se cadeirante é um desafio que ninguém quer para si. A falta de acessibilidade nos lugares, os olhares preconceituosos para o deficiente físico, a falta de conhecimento sobre a lesão medular ou qualquer outra disfunção que cause uma deficiência... Todos esses fatores fazem desse mundo um universo de ‘andantes’ terrivelmente limitado e inacessível a nós, portadores de deficiência. 
Pouco sabemos sobre o que podemos e/ou devemos realizar aqui, hoje. Mas a certeza do dever de ajudar o próximo é cada vez mais evidente. Nesse sentido, surgiu a ideia de compartilhar minha história, dentre perdas e conquistas, dividir informações, experiências e evolução da minha reabilitação através de um blog (www.dudaquerpassar.wordpress.com), que destino especialmente aos lesados medulares e demais portadores de deficiência física, também escolhidos a tocar a vida, sobre rodas ou não, mas sempre com fé e determinação diante de quaisquer obstáculos que ousem em tornar ainda maior o desafio que nos foi dado. 


Meu tesouro: Minha família.


O nome de nossa página no face é Acima dos Limites! O que você pode falar sobre viver Acima dos Limites?
Hoje, o sentimento pleno que sinto de gratidão vem daí. Acho que todos somos capazes de superar nossos próprios limites, ainda que não tenhamos tamanha crença nisso. Viver e conseguir conviver com grandes desafios é o que nós, deficientes ou não, temos. Acredito que somos repletos sim de limitações, sejam elas no corpo ou na mente, na alma. Hoje tenho as limitações físicas, mas afirmo com muita certeza que, junto com elas, estou vencendo todas as outras. 
Como foi sua reabilitação e a quais tratamentos você se submeteu?
Durante o tempo em que fiquei internada (4 meses), fiz as sessões de fisioterapia no hospital, muitas vezes restritas ao leito. Após a alta, procurei clínicas e centros de reabilitação aqui em Recife para continuar. Hoje faço fisioterapia neuromotora com o método PNF (Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva), acupuntura (como uma alternativa complementar no tratamento), musculação e hidroterapia. Há dois meses, comecei a ser acompanhada pelo Hospital Sarah de Fortaleza – CE.

Quais suas conquistas sobre rodas?
Acho que para nós, deficientes, poucas coisas tornam-se grandes conquistas. Como tenho marcha (movimentos nas pernas que me permitem andar) com apoio, procuro sempre utilizar muletas ou andador nos lugares que já conheço e onde não percorro uma distância muito grande.
Como você se sente hoje?
Muitas pessoas me falam que encaro tudo de uma maneira muito leve, vivenciando a realidade como alguém que descobre um mundo novo. Mas não é? Hoje eu vejo que realmente ganhei uma vida nova. Foram perdas imensas que fizeram minha vida mudar completamente, de repente. Eu me sinto simplesmente numa missão de recomeçar, todos os dias.

Quais seus sonhos e objetivos?
Ah, são muitos! Rsrsrs. Já que a vida me fez essa loucura toda, digo pra ela que eles podem ser adiados, e até um pouco modificados, o que não dá é pra desfazê-los.

Qual a maior lição que você já aprendeu?
Foram e ainda são muitas, mas a maior de todas... É que, na verdade, todos nós somos sozinhos no mundo. E somente lá dentro de cada um está a extrema capacidade de superar as dificuldades, que são nossas, de mais ninguém.


Como você se sente sendo um exemplo para muitas pessoas e o que você tenta passar no seu modo de viver?
Antes eu me emocionava vendo histórias como a minha. Chorava e me julgava uma ingrata por lamentar por tantas coisas fúteis. Mas eram as minhas limitações! São as de cada um, não da pra julgar. O que sinto hoje é gratidão, por estar no lugar de exemplo de superação, escolhida pra mostrar que muitas vezes o limite, somos nós que determinamos onde vai ser. 

Você acredita em Deus? O que ele representa para você?
Seria uma resposta muito extensa... Deus existe, e é puro amor. Acredito que está dentro de cada um de nós.

Qual a importância da sua família para você?
Não posso falar que sem eles não viveria, porque hoje sei que viveria POR ELES. É o que faço hoje, diante de todo amor que recebo, luto e vivo eternamente por eles.

Agora você pode falar algo especial às pessoas que você ama.
“Paciência, fé e amor curam tudo, qualquer dor. Vocês me dão mais que isso, OBRIGADA!”

Rapidinhas:
Uma palavra? Amor.
Um verbo? Viver.
Qualidade/defeito? Ansiedade/ muita ansiedade!
Eu deveria ser... Menos ansiosa? Hahahah (vale?)
Um livro? Gosto muito, mas não tenho predileto.
Um filme? “P.S. Eu te amo.”
Deus? Certeza.
Amigos? Anjos.
Família? Melhor parte de mim.
Amor? Vida.
Saudade? Convive diariamente comigo.
Cadeira de rodas? Para muitos, instrumento de liberdade.
Vaidade? Considero moderada.
Superação? Oh coisa boa! Haha
Tristeza? Faz parte, mas precisa de um lugar.
Alegria? A melhor lembrança que tenho do que vivi com Gustavo.
Derrota? Se você deixar, vira aprendizado.
Vitória? Agradece que lá vem mais! 






"É graça divina começar bem. Graça maior é persistir na caminhada certa. Mas a graça das graças é não desistir nunca"








"Suba o primeiro degrau da fé. Você não tem que ver toda a escadaria antes de subir o primeiro degrau"



Veja mais sobre Duda aqui: https://dudaquerpassar.wordpress.com/


Maria Eduarda.

4 Comentarios

  1. euso caderantes tabem gostei da sua istoria de vida se deus qize euvo vouta anda tabem e so te fe'en deus qitudo da certo

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  2. Deus no controle. Emocionante e muito verdadeiro. Sou amigo de amigos e me senti com tudo isso.

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