Contando Sua História com - Meri Proença

Meu nome é Rosimeri de Oliveira Souza Proença, mas sou conhecida como Meri. Nasci em 12 de julho de 1965. Uma Pessoa doce, sincera que ama fazer amizades. Mesmo limitada faço o possível para contribuir com a felicidade dos que me cercam.

Sou paraplégica com diagnóstico de Mielite Transversa sem causa aparente. No dia 16 de dezembro de 1988, depois de sofrer uma grande decepção e de chorar a noite inteira, acordei com dores lombares fortíssimas. Passei a semana indo a médicos e nenhum conseguia descobrir o que estava acontecendo com meu corpo. 
No dia 31 de dezembro, levantei, dei dois passos com muita dificuldade e caí. Fiquei ali chorando (primeira e única vez), pois não sabia o que estava acontecendo. Meu marido me levantou e, então, percebi que, da cintura para baixo, estava paralisada (T11). 
Um mês de internação sem tomar um comprimido sequer. Recebi alta médica com diagnóstico de que nunca mais voltaria a andar.
Hora de me adaptar... Na época, meus filhos tinham 7 e 3 anos, então tinha que lutar não só por mim, mas principalmente por eles. Minha preocupação era saber como eles viveriam sem uma mãe presente, mas eu não podia morrer antes de morrer!!!
A luta foi grande, porém, com muita fé em Deus de que tudo era possível, fui tentando. Divorciei-me e fui morar com minha mãe. Lá, com a ajuda da minha família, adaptei a casa e o quintal com aparelhos de fisioterapia que fazia diariamente, só parando por uma hora para almoçar. Era exaustivo, mas sentia que estava compensando. Um ano e meio depois, fiz 6 cirurgias em cada pé (equino).

Não tinha religião, mas minha fé em Deus era tamanha que, no réveillon seguinte, pedi a meus irmãos para me levantarem da cadeira, um de cada lado me segurando, pois daquele ano não passaria, eu voltaria a andar. Três meses depois da cirurgia e de me sentir fortalecida, já com movimentos... minha família estava na sala, quando levantei, segurei nos móveis e fui andando até eles. É claro que rolou até churrasco!
Não me sinto mais merecedora do que as outras pessoas, mas confesso que, nesses 27 anos de lesão, Deus me curou de doenças diagnosticadas e as que não foram também, pois Deus cura sem a gente saber. Em casa, ando segurando nos móveis e paredes; na rua, usava muletas; porém, há 4 anos, passei a usar cadeira de rodas e confesso que, com ela,  ganhei “asas”. Passei a fazer coisas que jamais imaginei (rsrs). Fui estudar, passei no concurso público do DETRAN_RJ, fiz curso de Perita Licenciadora (mais um desafio) e, depois do curso concluído, descobri que sou a primeira cadeirante perita do DETRAN (Huhuhuh rsrsrs)!
Hoje meu filho mais velho tem 33 anos, é formado e muito bem casado; tenho uma filha com 30 e outra com 23, as duas fazendo faculdade; também tenho uma nora maravilhosa e um netinho lindo (meu príncipe).

Sem nenhuma ajuda (de marido), construí minha casa. Depois de 19 anos, casei-me com um cadeirante, mas depois de 5 anos nos divorciamos (2º divórcio). Nunca brigamos, foi só mesmo por causa da distância entre minha casa e a dele (casamento em casas separadas). A vida segue! Vou fazer 50 anos, com cara de 35 (rsrs) e quero o terceiro casamento!
Não sou nenhuma heroína e, sim, uma mulher forte, pois sinto dores torturantes 24horas por dia. Não me lembro de um dia sequer sem dor durante estes 27 anos (meu espinho...).
2 Coríntios 12
7 Para impedir que eu me exaltasse por causa da grandeza dessas revelações, foi me dado um espinho na carne....
8 Três vezes roguei ao Senhor que o tirasse de mim.
9 Mas Ele me disse: “minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”...
Depois que nasci de novo com o evangelho de Jesus, trago para minha vida o versículo: "E conhecerei a verdade e a verdade vos libertará."(João 8:32). Verdade de que só Deus cura, salva, renova, revigora, dá força, paciência e, principalmente, paz. Hoje tenho paz, sou muito feliz e descanso nos braços do Senhor e Salvador da minha vida.

Resumindo um pouco sobre mim: não sou tímida, falo pelos cotovelos e dou bom dia até para cachorro de rua (rsrs)! Já joguei basquete, fiz dança esportiva de cadeira de rodas, nado, remo, pinto telas, pesca adaptada, faço pequenas reformas em casa (Pereirão) e gosto de desenhar. Acho-me uma mulher bonita. Minha filha, Michelle, diz que sou muito convencida, respondo que tenho espelho em casa (rs)!  Amo fazer amizades, já ganhei até cartão de Natal de motorista de ônibus. Gosto de tratar todos com respeito e igualdade; cumprimento o faxineiro, o porteiro, o segurança... todos pelo nome. Sou apaixonada pelo ser humano.
Minha vida dá um livro e meio, mas não dá para escrever tudo aqui.



Perguntas:

O que você pode dizer sobre a frase “cadeirantes que vencem”? Perfeita para nos definir! No momento em que entrei no blog e li a frase, logo pensei: cadeirantes que vencem o preconceito, a dor, as limitações, a depressão, a falta de acessibilidade... Tudo para continuar vivo.
Gostaria de compartilhar conosco algo sobre essa “grande decepção” que possivelmente desencadeou a Mielite no seu corpo? Não falo muito sobre isso. Prefiro que fique só com a informação da Mielite; assim, não magoo quem me magoou... “ Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra. (Mateus 5:39)

Como você se sentiu ao receber a notícia que não poderia mais andar? Na hora meu sentimento foi só de reverter a opinião médica, pois ele era médico e não Deus. Minha serenidade levou o médico a comentar que estava impressionado e pelo visto, rasgaria o diploma, pois qualquer outro paciente estaria em prantos... Acho que fez picadinho. (rsrsrs)

Onde você encontrou forças para superar isso? Em Deus e na minha família. Principalmente nos meus filhos. Eles precisavam de mim, de um exemplo a seguir.

Quais você considera suas maiores conquistas sobre rodas? Sobre rodas conquistei independência, mais amigos e meu trabalho.

Como essas conquistas influenciaram seu modo de viver hoje? A maior influência é ter certeza de que posso ir a lugares que antes eram inviáveis, cansativos e, principalmente, exercer meu trabalho que seria impossível sem a cadeira.

Você é feliz? Por quê? Muito! Meu sorriso diz tudo (rsrsrs). Tenho a certeza da salvação, uma linda família, um trabalho que amo, cercada de gente que me ama... Muita coisa boa para uma pessoa só!

O que te deixa triste? Ver alguém da minha família doente, injustiça, gente passando fome e murmurações, isso tudo me deixa de coração partido. Não é discurso de Miss! (rsrsrs)

Você é uma pessoa super ativa, o que diria às pessoas com limitações físicas que pararam suas vidas? Ativar o corpo e a mente com outros deficientes que praticam esportes ou algum tipo de arte. É muito gratificante; sem contar que grandes talentos foram descobertos assim.

Como ficou sua autoestima pós-lesão? Não me lembro de autoestima baixa. Vivi momentos de altos e baixos por saudades,  saudades de quando fazia dança e ginástica em uma academia local, de nadar na cachoeira e no mar, de arrumar a casa dançando...Hoje, faço algumas dessas coisas dentro do meu limite.

E o que você pode dizer às pessoas que não conseguem viver bem consigo mesmas?   Agradeça!  Agradeça a Deus por acordar, respirar, comer, viver... Agradecer é confiar. Deus se agrada de quem confia nEle.

Você já sofreu preconceito por ter limitações? Sutilmente, sim. Nada muito declarado. Ex: clientes chegavam ao meu trabalho e se derretiam em simpatia (quase uma cantada), mas quando eu saía de trás da mesa, o discurso mudava, porém, não me incomodava, pois nunca deixei de ser  paquerada (rsrsrs).

Quais seus sonhos para o futuro? Tenho muitos sonhos e pretendo realizá-los. Quero conhecer o nordeste do Brasil, voar de asa delta, saltar de paraquedas, surfar, ir à Disney...

Como você tenta influenciar o mundo rumo a dias melhores? Não sei se influencio, mas tento com meu sorriso, acreditando que dias são construídos pela serenidade do meu coração, pela paz que transmito aos outros, pela simplicidade dos meus atos e sempre acredito que algo novo Deus irá fazer.

O que você mais valoriza hoje? Sempre valorizei a humildade e, hoje, valorizo a capacidade de superação que nós, deficientes, temos.

Qual a maior lição de vida que você já aprendeu? Minha vida sempre foi de lições e aprendizado. Acho que nossa função na Terra é para aprendermos, tais como: amar, respeitar, não julgar, reconhecer, ser grato... Mas, minha maior lição foi não subestimar a capacidade do ser humano.

Como você se sente sendo um exemplo de superação para muitas pessoas? Feliz e realizada! É muito gratificante ser exemplo, principalmente para minha família. Noto mudanças no comportamento de algumas pessoas depois que conhecem minha história.

Como você descreve sua fé e como ela te ajuda? Descrevo com o versículo: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não se veem” (Hebreus 11:1). Fé que operou o milagre de me fazer andar depois de 2 anos, mesmo desenganada pelos médicos; fé que não me deixa desistir da vida e que levará meu testemunho ao mundo de como Deus cura...

Quem é Deus para você? Tudo! Sem Ele eu nada seria.

Quer deixar algumas palavras para alguém em especial? Nossa, não caberiam aqui as pessoas especiais que passaram na minha vida e influenciaram de alguma forma. No entanto, quero agradecer a minha mãe por abandonar emprego para ficar ao meu lado; sem ela teria ficado tudo mais “pesado” e agradeço a Deus pela vida dela.

Rapidinhas:
Música? Only Hope- Mandy Moore
Caráter?  Ações e valores de que não abro mão.
Personalidade? Força e coragem.
Livro? Bíblia.
Filme? Difícil, pois sou cinéfila. “O Livro de Eli” 
Uma palavra? Amor.
Deus? Onipresente, onisciente, soberano... Meu tudo!
Amigos? Dedicação.
Família? Minha base.
Filhos? Benção de Deus sem medidas.
Trabalho? Segurança.
Amor? A espera de um rsrsrs (cumplicidade...)
Saudade? Infância.
Superação? Vencimento de obstáculos e dificuldades.
Tristeza? Jamais.
Alegria? Igreja, família e amigos.
Esporte? Todos, porém, prefiro remo e natação.
Dança? Liberdade.
Arte? Manifestação das minhas emoções.



Ter fé e esperança ajuda muito a vencer e superar os desafios de nossa vida. Certamente acreditar em Deus nos dá mais sabedoria para viver, sabendo que podemos melhorar a cada dia e que é possível fazer um futuro melhor.

Aqui acrescento um pensamento de minha autoria. Reflete um pouquinho de como me sinto por não ter as pernas “normais”.

Mesmo que eu não consiga libertar-me do casulo em minhas pernas, dançarei a valsa da vida, enfrentarei as tempestades, levarei tombos, serei frágil, sonharei, criarei expectativas, decepcionar-me-ei e encontrarei espinhos e preconceitos. Não serei refém das amarras da ignorância. Sentir-me-ei viva, o vento no rosto, o cheiro das flores, o sol aquecendo minha alma e a vida que anseio fluindo em mim. Sou borboleta de Deus, passando pela metamorfose.
Meri Proença.


“Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito”. (Martin Luter King)





O meu corpo e o meu coração poderão fraquejar, mas Deus é a força do meu coração e a minha herança para sempre.


Salmos 73:26









Meri Proença.

18 Comentarios

  1. Grande exemplo parabéns pela superação!!!

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  2. Eu sou suspeita ´para falar sobre Meri,pois a amo admiro e desejo tudo de melhor,o Senhor seja contigo meu amor..

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    1. Amém!! Tbm te desejo o melhor, minha irmã "preta"!!!

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  3. " Ela é guerreira, ela é mulher de verdade..."

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  4. Meri, sou amiga do Bruninho e da Dani, lhe conheci no dia do aniversário do Davi. Linda a entrevista! Sei que você ainda vai longe, porque o nosso Deus é fiel e poderoso para cumprir suas promessas em nossas vidas.

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  5. euso caderantes tabem adorei vc e guerera viu meri

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    1. Olá, Fábio! Obrigada pelo carinho. Se quiser pode me add no face. Bjs no S2!

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Meri eu sou sua fã esse seu sorriso contagiante sinto falta de quando agente encontrava uma vez por semana
    dos nosso papo das brincadeira que saudade bjos

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    1. Obrigada pelo carinho, Cida! Também sinto falta dos nossos encontros...Bjs em seu lindo coração!!

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